A origem: uma imagem achada no igarapé
A tradição conta que, por volta de 1700, o caboclo Plácido José de Souza encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murutucu, onde hoje fica o bairro de Nazaré. Ele a levou para casa; segundo a narrativa popular, a imagem voltou sozinha ao local do achado várias vezes. Plácido ergueu ali uma ermida, que se tornou ponto de romaria espontânea.
A devoção cresceu ao longo do século XVIII até ganhar reconhecimento oficial. A primeira procissão organizada, que fundou a tradição do Círio, foi realizada em 1793, autorizada pelo governador da capitania do Grão-Pará. A palavra círio vem do latim cereus, vela grande — referência às velas que acompanhavam os cortejos religiosos.
A imagem original é pequena, de madeira, e permanece guardada; nas procissões circula uma réplica, protegida pela berlinda, o andor envidraçado e ornamentado com flores.
Como funciona a festa
O Círio não é um único dia, mas um ciclo de duas semanas que mobiliza a cidade inteira. Os momentos principais:
- Romarias preparatórias — nos dias que antecedem o domingo, a imagem percorre a região metropolitana por estrada e pelo rio, na Romaria Rodoviária e na Romaria Fluvial, esta acompanhada por centenas de embarcações enfeitadas;
- Auto do Círio — cortejo cênico noturno criado em 1993 pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, por iniciativa das professoras Zélia Amador de Deus e Margareth Refkalefsky, com estudantes e artistas, que mistura teatro de rua, música e elementos da cultura amazônica;
- Trasladação — na noite de sábado, a imagem é levada em procissão até a Catedral da Sé, no centro histórico, para o Círio da manhã seguinte;
- Círio — no domingo, ainda de madrugada, a berlinda parte da Catedral da Sé rumo à Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, pouco mais de três quilômetros percorridos em várias horas por uma multidão compacta;
- Recírio — duas semanas depois, a imagem retorna em nova procissão, encerrando o ciclo. Entre os dois domingos, o Arraial de Nazaré funciona ao lado da basílica.
O elemento mais simbólico é a corda, de sisal, dividida em duas metades que se estendem à frente da berlinda. Ela surgiu no século XIX, quando o andor atolou na lama e os romeiros improvisaram uma corda para puxá-lo; o gesto virou promessa. Segurar a corda de ponta a ponta é uma das formas mais duras de pagar uma graça — e um dos motivos pelos quais o cortejo demora tanto.
O almoço, os brinquedos e o reconhecimento
Terminada a procissão, começa o Almoço do Círio, ritual doméstico tão firme quanto o religioso. A mesa paraense do dia traz maniçoba — folha de mandioca moída e cozida por dias para eliminar o ácido cianídrico —, pato no tucupi com jambu e, frequentemente, tacacá e vatapá paraense. Casas recebem parentes vindos de fora, e o almoço reúne quem só se vê nessa data.
Outra marca é o brinquedo de miriti, feito com a fibra leve da palmeira buriti principalmente em Abaetetuba. Barquinhos, cobras e aves coloridas são vendidos aos milhares durante o Arraial e viraram símbolo visual da festa.
O reconhecimento institucional veio em duas etapas: em 2004, o Iphan registrou o Círio como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil; em 2013, a Unesco o inscreveu na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A data muda todo ano por depender do segundo domingo — veja onde ela cai no calendário de outubro ou no calendário de 2026. Outras celebrações do mês estão em festas de outubro no Brasil e em Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro. Para o contraponto profano do calendário catarinense, veja a Oktoberfest de Blumenau. Mais sobre o mês nas curiosidades de outubro.