Os ditados mais conhecidos e o que cada um quer dizer
O repertório português de provérbios dos meses é agrícola: cada mês recebe uma ordem de serviço em verso. Outubro ganhou três dos mais repetidos.
- "Em outubro, pega o boi pelo rabo." É um chamado ao trabalho pesado. Terminada a vindima e recolhida a colheita do verão, outubro era o mês de atrelar a junta de bois e arar o campo para a sementeira. O ditado tem variantes regionais (com o boi pego pelo corno, pelo cabresto ou pela cauda), todas com o mesmo recado: acabou a folga, é hora de lavrar.
- "Em outubro, sementeira e chuva." Descreve a dupla que o lavrador esperava: semear o trigo, o centeio e o cereal de inverno logo antes das chuvas de outono, que amolecem a terra e fazem a semente pegar. Semear cedo demais e sem chuva era perder a semente; semear tarde, era perder o inverno.
- "Outubro quente traz o diabo no ventre." Calor fora de hora em pleno outono europeu era lido como mau agouro — sinal de doença, de safra desregulada e de inverno rigoroso vindo atrás. É um dos vários provérbios que tratam clima anormal como ameaça, não como bênção.
A mesma lógica se estende ao mês seguinte, no ditado que todo português conhece: "no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho", em 11 de novembro. Outubro planta e trabalha; novembro prova o resultado. Há ainda o "verão de São Martinho", nome ibérico para aquele punhado de dias mornos no fim de outubro e começo de novembro que interrompe o frio antes que ele se instale de vez.
Por que esses provérbios não valem no Brasil
Aqui, outubro é o segundo mês da primavera. Os dias estão aumentando, não encurtando; a temperatura sobe, não cai; e não há sementeira de cereais de inverno para fazer. Um ditado que trata o calor de outubro como presságio ruim simplesmente não descreve o Brasil, onde outubro quente é o normal. Vale a pena comparar com o que de fato acontece no outubro do hemisfério norte e com a primavera brasileira — são dois calendários agrícolas em espelho.
Isso não significa que "pega o boi pelo rabo" perdeu o sentido: como metáfora de arregaçar as mangas, ele funciona em qualquer hemisfério. Só não descreve mais uma tarefa de campo. E, curiosamente, outubro é mesmo mês de plantio no Brasil — só que de outras culturas e por outro motivo, a volta das chuvas no Centro-Sul. Veja o que plantar em outubro por aqui.
E os ditados brasileiros sobre chuva e plantio?
O provérbio popular brasileiro raramente se organiza pelas quatro estações. Ele se organiza por chuva e seca, e costuma se prender a santos e a datas específicas em vez de a meses inteiros. O exemplo mais forte é sertanejo: no Nordeste, observa-se o dia de São José, 19 de março, como indicador do ano — se chover, espera-se um "inverno" (a estação chuvosa) generoso. É o mesmo mecanismo mental dos provérbios ibéricos, aplicado a um clima completamente diferente.
Por isso, se você for usar um ditado de outubro em um mural de escola, num post ou num cartão, vale dizer de onde ele vem. Atribuir a Portugal o que é português evita o mal-entendido de anunciar folhas caindo no mês em que os ipês estão floridos. E, para textos sobre o mês, as frases de outubro e as frases de primavera costumam encaixar melhor no cenário brasileiro do que o repertório agrícola do outono europeu.
Uma última observação de método: provérbio popular não tem autor. Se você encontrar um "ditado de outubro" assinado por um escritor famoso, provavelmente é frase de internet com etiqueta trocada. Mais sobre a formação do calendário e dos seus costumes em história do mês e em curiosidades de outubro.